Uma Introdução Geral à Carta de Paulo a Tito

Por Rev. Diogo Jorge Gonçalo

Texto: Tito 1:1-4.

1-Paulo servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, para promover a fé que é dos eleitos de Deus e o pleno conhecimento da verdade segundo a piedade, 2- na esperança da vida eterna que o Deus que não pode mentir prometeu antes dos tempos eternos 3- e, em tempos devidos, manifestou a sua palavra mediante a pregação que me foi confiada por mandato de Deus, nosso Salvador, 4- a Tito, verdadeiro filho, segundo a fé comum, graça e paz, da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Salvador.

Introdução

A carta de Paulo a Tito pertence a um grupo de escritos Neotestamentários, denominados de: “Cartas Pastorais” (são elas: I e II Timóteo e Tito). Essa designação foi cunhada para estes textos no século XVIII “por D. N. Bardot (1703), e popularizadas por esse Título em 1726, por Paul Anton” 1. Porém, é muito importante destacar que, apesar de termos num primeiro momento, a impressão de que elas tratam somente de assuntos relacionados ao “ministério pastoral”, “ordenado” em particular, podemos afirmar que elas são muito mais abrangentes em suas abordagens e tratam da vida da igreja como um todo. Como diz o escritor Norman R. Champlin, em seu comentário introdutório das epístolas pastorais, falando sobre a propriedade dessa designação “cartas pastorais” para estes escritos:

Abordam problemas eclesiásticos, tendo por intuito ajudar os pastores no seu trabalho, especialmente no ministério do ensino e na vigilância em favor da igreja cristã mormente no tocante aos assédios dos ensinamentos falsos. Essas epistolas tratam essencialmente de temas de natureza pratica, como a ordem e a disciplina na eclesiástica, a seleção dos oficiais da igreja e o caráter e os deveres dos membros da comunidade cristã.2

John Stott, por exemplo, se referindo à carta de Paulo a Tito afirma que “a principal ênfase de Paulo nesta carta é: “A doutrina e o dever”. E isso nas três esferas que atuamos: “A igreja, o lar e o mundo” 3

O valor destas missivas sagradas para a igreja dos dias hodiernos é simplesmente algo imprescindível e de valor incalculável. Willian Hendriksen destaca, pelo menos, sete motivos principais pelos quais devemos estudar essas cartas pastorais: a) porque lançam luz sobre o importante problema da administração eclesiástica; b) porque enfatizam a Sã doutrina; c) porque exigem uma vida consagrada; d) porque respondem a pergunta: “os credos têm valor”? e) porque nos informam das atividades finais da vida do grande apóstolo Paulo; f) porque são uma valiosa fonte para a compreensão da história da igreja no terceiro quarto do 1º Século d.C.; g) porque nessas epístolas, tanto quanto nas demais, Deus nos fala. 4

Hernandes Dias Lopes é muito feliz em seu comentário dessa carta quando nos fala da necessidade que temos hoje de estudarmos as cartas pastorais. Ele chama a nossa atenção para as seguintes razões: a) Os pastores estão em crise. Segundo ele, as pesquisas indicam que as três classes mais desacreditadas no nosso país são: Os políticos, a polícia e os pastores; b) A igreja está em crise; c) porque há nas igrejas um descompasso entre teologia e vida; d) porque as heresias sempre se vestem de nova roupagem para se infiltrar nas igrejas; e) porque a maneira errada de lidar com as pessoas dentro da igreja é a causa de muitos problemas.5

William Barclay destaca que: “as epistolas pastorais falam mais diretamente a situação das igrejas jovens.” 6 Isso, porque o contexto dessas cartas é de “organização” das comunidades eclesiásticas nascentes. Paulo havia deixado Timóteo na cidade de Éfeso (I Tm 1: 3; 5) e Tito na ilha de Creta (Tt.1:1-4), com o propósito de “organizarem” essas igrejas, e constituírem e/ou capacitarem a liderança para esses rebanhos. Ainda, o escritor supracitado considera que nesse período as igrejas eram “uma pequena ilha num mar de paganismo” 7

É com essa visão da importância dessas cartas pastorais para a igreja dos nossos dias, que nós estaremos considerando nessa primeira exposição desta série, os aspectos introdutórios da carta de Paulo a Tito. O nosso objetivo é trabalharmos a questão da autoria, destinatários, data da escrita, propósito, teologia e estrutura do texto. Só gostaria de fazer uma observação que precisa ser feita, quanto ao fato de fazermos uma introdução mais “abrangente” e relacionada às três cartas pastorais como um todo: É porque seria praticamente impossível trabalharmos os aspectos elucidativos de uma dessas missivas em particular, sem considerarmos o conjunto (I, II Timóteo e Tito).

A Autoria da Carta

Paulo servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo” (...) v.1º.

Como podemos verificar, à luz do texto lido, o autor dessa carta é o apóstolo Paulo (Tito 1.1-4). Essa posição não foi seriamente contestada ao longo da história da igreja, se não a partir do século dezenove pelos teólogos de linha liberal. Entre eles podemos destacar F. Schleiermacher e F. C Bauer.8 Porém, quando buscamos o testemunho da igreja antiga nos escritos dos chamados “pais apostólicos”, fica muito claro para nós, que nos primeiros séculos da era cristã, a igreja reconhecia a autenticidade dessas epístolas (I, II Timóteo e Tito) como sendo genuinamente Paulinas.

Dentre os “pais da igreja” que defenderam essa verdade, podemos destacar: Clemente de Roma, Inácio, Justino Mártir e Policarpo. A autoria paulina ainda é corroborada pelo cânon Muratório.9 A única exceção, de acordo com Hernandes Dias Lopes, é o testemunho de Marcião em 144 d.C, o qual excluiu não só as pastorais da sua “lista canônica”, mas também boa parte do AT e suas citações no Novo testamento.10 Vale lembrar que Marcião foi condenado e excomungado como herege, em virtude de suas posições heterodoxas.

Não há razão para aceitarmos a posição liberal quanto à questão da não autoria Paulina. Os seus argumentos são frágeis no que diz respeito às questões de: vocabulário, estilo literário, falta de teologia e, até mesmo um autor pseudônimo, em virtude do testemunho da igreja. Seja nos primeiros séculos da era cristã, ou nos melhores escritores contemporâneos como, por exemplo: John Stott, Willian Hendriksen e etc.

O Destinatário e o Propósito da carta

“a Tito, verdadeiro filho, segundo a fé comum, graça e paz, da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Salvador.” (v.4).

É muito importante ressaltar que, embora o apóstolo esteja escrevendo para Tito, o “pastor” da igreja, a sua mensagem, como já dissemos na introdução, estará sendo direcionada para toda a comunidade eclesiástica da ilha de Creta e não somente para os seus líderes. O reformador João Calvino, seguindo essa mesma linha de pensamento, diz o seguinte sobre isso: “esta não é tanto uma carta especificamente dirigida a Tito, mas uma epístola pública destinada aos cretenses.” 11 Portanto, gostaria de destacar a pessoa de Tito e o perfil dos cretenses, no intuito de compreendermos melhor o contexto, o propósito e as pessoas para as quais o apóstolo Paulo está escrevendo:

a) Quem foi Tito?

É curioso verificar que o livro de Atos não faz menção a Tito. Ele era um cristão grego, companheiro e ajudante de Paulo (2Co 7.6; 8.6,16-17,23; Gl 2.1,3; 2Tm 4.10). Verdadeiro filho, segundo a fé comum: Ver 1Tm 1.2, n.

À luz dos textos supracitados pode-se perceber que Tito era uma espécie de “obreiro” enviado por Paulo para missões “especiais” e/ou difíceis como, por exemplo, o apóstolo confiou a Tito missões tão delicadas como pôr ordem na igreja de Corinto (2Co 2.13; 7.6-7,13-14; 8.6,16,23; 12.18) e organizar a vida da comunidade cristã da ilha de Creta (Tt 1.5). Também visitou a Dalmácia, ao norte do litoral Adriático (2Tm 4.10), visita sobre a qual não há informação. Paulo, que pensava passar o inverno em Nicópolis, rogou-lhe que fosse para lá, a fim de estar com ele (Tt 3.12).

João Crisóstomo, considerado como sendo “boca de ouro”, em virtude da sua eloquência e pregação poderosa, talvez, o primeiro pregador expositivo da História da igreja, em seu comentário da carta de Tito afirma que: “dentre os companheiros de Paulo, Tito era bem comprovado. Se não o fosse, Paulo não teria lhe confiado uma ilha inteira, nem lhe teria ordenado completar o que faltava, pois diz: “para acabares a organização” (1:5), nem lhe teria confiado o julgamento de tantos bispos, se nele não depositasse inteira confiança.” 12

Bürki Hans, em seu comentário da Carta de Paulo a Tito afirma que: “A tradição da igreja noticia que Tito teria se tornado bispo, permanecendo solteiro e falecendo aos 94 anos de idade.” 13

b) A ilha de Creta.

Essa ilha do mar mediterrâneo era bastante conhecida e populosa. Segundo Hernandes Dias Lopes, ela possuía 260 quilômetros de comprimento.14 De acordo com o texto da carta de Paulo a Tito, os seus habitantes eram pessoas que tinham fama de má reputação (Tt. 1.12). Não se sabe como o evangelho chegou à ilha de Creta. A hipótese mais provável é aquela que defende a chegada do evangelho na ilha, a partir dos judeus piedosos presentes no dia de pentecoste (At. 2: 10,11).

Uma curiosidade que vale a pena ser ressaltada no que diz respeito a essa ilha é a origem da palavra “sincretismo”, em virtude de sua privilegiada situação geográfica, pois, “Creta situava-se em um ponto de cruzamento entre a Ásia, a áfrica e a Europa.” 15 Havia uma espécie de confluência no que diz respeito aos cultos, religiões, filosofia e linhas de pensamentos.

É nesse contexto de relativismo, pluralismo, sincretismo e abandono da verdade, presente também e, sobretudo, nos nossos dias pós-modernos, que leva o Dr. John Stott a trabalhar essa questão do propósito das cartas pastorais como sendo em especial a transmissão fiel da verdade: “Mas a preocupação dominante do apóstolo em todas as três cartas pastorais é com a verdade, para que ela seja guardada e transmitida fielmente.” 16

A Data e a Estrutura da Carta

É consenso por parte dos teólogos e comentaristas conservadores que a cronologia das cartas pastorais está fora da cronologia do livro de Atos. O evangelista e historiador Lucas, termina o seu relato da vida de Paulo descrevendo a primeira prisão dele na cidade de Roma, na qual teve o privilégio de ser “domiciliar” (Atos. 28: 30,31). À luz de textos como Fp 2:24 e Fm. 22, podemos perceber que Paulo tinha a expectativa de ser liberto.

O ponto principal dessa discussão é quanto ao fato de Paulo não fazer referência nenhuma, seja em ITimóteo ou na carta a Tito, sobre qualquer dificuldade ou aprisionamento como, por exemplo, o faz na sua II carta a Timóteo (4: 6-18). O que faz os estudiosos entenderem que a carta de Tito foi escrita antes da segunda carta a Timóteo.

A data mais aceita pelos estudiosos seria então, os anos de 62-64 d.C. Provavelmente ele escreveu da macedônia, conforme ITm.1.3; Tito 1.5. Após ter viajado pelo sul da Grécia, “Acaia” (Gal. 3:12), Paulo chega a trôade (IITm. 4:13). É exatamente aqui, onde provavelmente ele foi novamente preso não tendo tempo nem de pegar sua capa e seus livros e é levado para o martírio. De acordo com a tradição, Paulo foi morto por mandato de Nero, no ano 64-65 d.C., decapitado na Via Óstia, fora da cidade de Roma, no dia 29 de Junho.17

A Teologia e os Temas Presentes na Carta

Quando estudamos as cartas pastorais, mormente a carta de Paulo ao seu filho na fé, Tito, podemos identificar a riqueza doutrinária e teológica presente nessas missivas sagradas. Paulo está instruindo a Timóteo e a Tito no intuito deles transmitirem essas verdades doutrinárias aos futuros obreiros daquelas igrejas. O reformador João Calvino afirma que: “À luz desta epístola se torna óbvio que, imediatamente após a partida de Paulo, satanás lançou mão de todo o seu arsenal, não só para transtornar o governo da igreja, mas também para corromper a doutrina.” 18 É triste quando verificamos que em muitas igrejas, inclusive de herança reformada, o diabo tem conseguido fazer isso, por falta de um “púlpito” doutrinariamente saudável e forte biblicamente. Podemos perceber, de forma muito clara, a riqueza doutrinária e teológica dessa carta: A soteriologia, eclesiologia, a poimênica e etc. Podemos ver nesta pequena carta, temas como: a graça, trindade, ética, administração eclesiástica e etc.

Conclusão

Quero concluir com uma observação do Dr. William Barclay: “As cartas pastorais falam mais diretamente à situação das igrejas jovens.” 19 A igreja estava começando a se tornar, simplesmente, uma instituição ‘organizada’. Portanto, era necessária a Sã doutrina. Leia a carta de Tito como o fez John Stott: “sentado” ao lado de Tito, e, quando mais perto de Paulo, procurando “visualizar” o estado da igreja dos nossos dias! O propósito de toda esta série poderia resumir-se nas palavras da famosa oração de Richard Chichester: Procuram fazer com que Jesus Cristo seja conhecido de maneira mais clara por todos os homens e mulheres, que seja amado com mais dedicação e que seja seguido mais de perto. Amém

  1. HALE, Broadus David. Introdução ao estudo do novo testamento. Ed Hagnos. SP 2001, p.
  2. CHAMPLIM, Russel Normam. Novo testamento interpretado versículo por versículo Vol. 5 (filipenses - Hebreus). Ed Candeia. SP 1998p 265.
  3. STOTT, John. A mensagem de 1 Timóteo e Tito. A vida da igreja local: a doutrina e o dever. ABU. SP 2004p. 10.
  4. HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento (I - II Timóteo e Tito). SP. Cultura Cristã. 2011p.9
  5. LOPES, Hernandes dias. Tito e Filemom: Doutrina e vida, um binômio inseparável (comentários expositivos Hagnos). SP 2009p.
  6. BARCLEY, William. Comentário de Tito. Tradução de Carlos Biagini.
  7. Ibid.
  8. HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento (I - II Timóteo e Tito). SP. Cultura Cristã. 2011 p.9.
  9. LOPES, Hernandes dias. Tito e Filemom: Doutrina e vida, um binômio inseparável (comentários expositivos Hagnos). SP 2009 p. 15.
  10. Ibid.
  11. Calvino, João. Série comentários Bíblicos: Pastorais. Ed. FIEL, SP. 2009 p 294.
  12. CRISÓSTMO, João são. Comentário às cartas de Paulo vol. 3. SP. Paulus 2013. (Coleção patrística 26) p. 273.
  13. Bürki, Hans. Cartas aos Tessalonicenses, Timóteo, Tito e Filemom / Werner de Boor, Hans Bürki / tradução Werner Fuchs --Curitiba, PR : Editora Evangélica Esperança, 2007.
  14. LOPES, Hernandes dias. Tito e Filemom: Doutrina e vida, um binômio inseparável (comentários expositivos Hagnos). SP 2009 p. 15.
  15. Ibid.
  16. STOTT, John. A mensagem de 1 Timóteo e Tito. A vida da igreja local: a doutrina e o dever. ABU. SP 2004 p. 10.
  17. HALE, Broadus David. Introdução ao estudo do novo testamento. Ed Hagnos. SP 2001, p.332.
  18. Calvino, João. Série comentários Bíblicos: Pastorais. Ed. FIEL, SP. 2009 p 293.
  19. BARCLEY, William. Comentário de Tito. Tradução de Carlos Biagini.

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